Tira-teima: cinquenta e seis é humilhante?
A fase de grupos do Campeonato Carioca Feminino terminou no último domingo (6 de outubro) deixando parte do público com a desagradável sensação de descaso. Os resultados absurdos e placares elásticos causaram insatisfação em quem consome o futebol feminino, levando má reputação ao campeonato e à Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ), responsável pela organização do mesmo.
Na terceira rodada, um fato específico causou grande movimentação no universo esportivo. A partida entre Flamengo e Greminho terminou em 56 a 0 para as Meninas da Gávea. É possível ver os reflexos do placar ainda em debates nas redes sociais, e discussões sobre fair play, organização de campeonato e visibilidade de futebol feminino vieram à tona.
A equipe do Esporte 2,1 entrou em contato com Hamilton, presidente e técnico do Greminho, e com a atacante Nathalia Lima para entender a visão da instituição e das atletas diante do acontecido. Veja a entrevista:
Pergunta: Qual foi o fator motivacional que fez vocês continuarem na partida? Em algum momento pensaram em desistir?
Hamilton: Desde que decidimos disputar essa competição, nós vimos como oportunidades. Por isso fomos motivados para os compromissos que teríamos pela frente. Enfrentar o Flamengo era a realização de um sonho para nosso projeto e, devido a isso, não passou pela nossa cabeça desistir.
Nathalia: Nós já fomos preparadas, sabíamos que não iríamos vencer por conta do Flamengo ser um time com uma estrutura grande, um time bem preparado, e nós sermos um time pequeno, que está começando. Mas a gente terminou com força de vontade para continuar dentro de campo, para mostrar que somos fortes. Não fomos agressivas, continuamos, e depois disso as meninas do Flamengo foram muito amorosas conosco.
P: Nesse momento, após toda a repercussão na mídia, onde muitos quiseram falar pelas atletas e pelo clube, especificamente para vocês como presidente e atleta, o que é mais importante em estar nesse campeonato, enfrentando equipes tão fortes e estruturadas em relação a equipes ainda em construção, como é o caso do Greminho e de muitos outros?
Hamilton: Como falei, o maior motivo é a oportunidade para essas meninas, que nunca entraram em um campo oficial. Nosso grupo foi montado em 20 dias. Sabíamos desde o início da superioridade das outras equipes, mas mesmo assim decidimos encarar com a cara e coragem.
Nathalia: A gente só tem a agradecer, porque é uma grande vitória para nós. É uma grande oportunidade para nós estar ali no Campeonato Carioca, mesmo com clubes maiores, nós vemos ali a capacidade da gente amadurecer, ganhar uma maturidade para jogar e ser forte. Porque isso também mexe com nosso psicológico. A nossa estrutura é pequena, mas depois dessa repercussão muitas pessoas mandaram mensagem perguntando se a gente quer alguma ajuda. Estamos muito abraçados. Tiveram muitas pessoas para nos criticar, ficar falando mal da gente, mas também muitas pessoas que nos ajudaram. Só tenho agradecer a cada uma delas, ao Campeonato Carioca... Não importa “Ah, colocaram para jogar contra o Flamengo”. Mas ainda assim só temos a agradecer por terem sido maravilhosos conosco.
P: Acredita que o desenvolvimento do clube e da equipe seria melhor caso estivesse disputando uma divisão com equipes também em fase inicial de montagem e estruturação?
Hamilton: Ah, isso com certeza! Mas a gente não está nada decepcionado com o que aconteceu, e nosso objetivo era dar início nesse projeto e, graças à Deus, conseguimos.
Nathalia: Sim e não. Acho que se fossem times do nosso patamar, ficaria fácil, mas colocando as pessoas que têm mais estruturas que a gente, eu vejo que isso nos ajuda. Nós vemos as técnicas delas, conversamos com as meninas quando acabam os jogos, elas nos aconselham, falam para não desistirmos, porque elas também vieram debaixo para crescer no futebol.
P: O futebol feminino vem ganhando espaço ultimamente, principalmente depois da Copa do Mundo. Como vocês encaram a organização do campeonato carioca, que vem sido muito criticada, dada a disparidade dos elencos e das estruturas?
Hamilton: Não vejo a FERJ como culpada de nada. Quem realizaria o sonho de jogar contra o Flamengo se não fossem eles? Por isso, não acho que tenha sido um erro, não. Encaramos uma equipe profissional e oportunidades estavam em jogo.
Nathalia: Como as pessoas querem nos apoiar, elas acabam criticando muito o Campeonato Carioca. Elas acham que o campeonato foi o culpado pela goleada, mas não. Felizmente, o Flamengo tem mais estrutura que a gente. E sempre que chegamos lá somos bem recebidos. Não temos nada para reclamar da FERJ.
P: Durante a Copa do mundo feminina, a Marta falou que “Não vai ter uma Formiga para sempre, uma Marta, uma Cristiane. Pensem nisso, valorizem mais. Chorem no começo para sorrir no fim”. Qual o impacto dessa derrota e como esse discurso da rainha do futebol motiva vocês?
Hamilton: E nada em nossas vidas vem fácil, né? O Greminho não tem estrutura. Treinamos numa praça de terra onde só cabem 6 na linha e 1 no gol, e nem por isso deixamos de sonhar. Acho que, para vencer, precisa ter sacrifico, e quando a oportunidade aparecer, precisamos agarrar. Acho que a nossa maior motivação é acreditar que é possível chegar.
Nathalia: Muitas meninas ficaram se culpando, tristes, choraram. Mas como uma família nós temos o direito de fazer umas às outras ficarem alegres e felizes. Nossa capitã, Duda, nos ajudou muito com conselhos, porque até eu mesmo queria desistir. Eu li essa frase da Marta e fiquei muito feliz, porque nós somos o futuro do futebol feminino. O futebol feminino precisa ser mais valorizado. Nós precisamos ser valorizadas, porque não é porque eu tenho 15 anos que eu não entendo das coisas. Esse é o nosso sonho. Isso tudo, para nós, é o sonho virando realidade. Tem gente que sonha com isso desde que nasceu. Eu, por exemplo, sonho com isso desde os 4 ou 5 anos de idade, que foi quando eu comecei a jogar futebol, fugir de casa para poder jogar bola na rua com meus amigos. Porque minha mãe era daquelas peças antigas, que menino joga bola e menina brinca de boneca. E com todo apoio que estamos tendo, a gente fica bem sabe animada.
P: O que fazer para não desistir e continuar de pé mesmo com tantas dificuldades encontradas?
Hamilton: Continuar trabalhando é fundamental para continuar, alimentar o sonho. As dificuldades existem para serem superadas.
Nathalia: No meu caso, minha força é a minha família, principalmente minha avó, que esteve comigo desde os meus oito meses de vida, quando eu estive mal e ela não saiu do meu lado. E eu vejo isso, para mim, lá na frente poder ajudar minha família, estabilizar. A vida é como uma roda gigante: um dia você está lá embaixo, e no outro, lá em cima.
P: Algumas jogadoras se posicionaram nas redes sociais após receberem críticas por conta do resultado elástico. Como instituição, o Greminho instruiu as atletas sobre o cuidado na hora de se posicionar diante das críticas?
Hamilton: Acho que só critica quem não tem coragem pra fazer. Não é fácil reunir um grupo de meninas e encarar um Campeonato Carioca. Mas nós fizemos, e as críticas só servem para nos motivar ainda mais a dar a volta por cima.
Nathalia: Só o presidente Hamilton, o técnico Gabriel e a capitã Duda. Eles sempre conversaram conosco, diziam para a gente não focar no resultado. Só a gente dar o nosso melhor era importante. O Campeonato Carioca nos proporcionou muitas coisas. Nossa vida mudou de um dia para o outro. De estar ali, para nós, já é uma grande vitória. Ele (Hamilton) sempre falou para a gente não se importar com as críticas, que deveríamos levantar a cabeça e melhorar cada vez mais.
P: Qual o sentimento que fica ao ver toda essa repercussão da partida e seus reflexos na mídia? O reconhecimento tem sido positivo?
Hamilton: O que pra muitos seria um dia pra esquecer, para nós se tornou um dia inesquecível. Tem acontecido coisas maravilhosas para a gente e vamos trabalhar em busca de melhorias e oportunidades.
Nathalia: Tem sido bem positivo. Muitas pessoas estão abraçando o futebol feminino. Eu vi isso para ajudar não só a gente, mas todas. Fizemos até uma vaquinha online. Isso tem nos ajudado bastante, para o reconhecimento do futebol feminino. Clube e jogadoras nos mandaram mensagens positivas. Teve gente querendo nos patrocinar, e a gente precisa de patrocínio. A gente treina num campo de terra, não temos estrutura.
P: Sobre a vaquinha online: como surgiu a ideia? Poderiam explicar melhor para onde o dinheiro arrecadado será voltado?
Hamilton: A vaquinha online foi a ideia de uma atleta nossa em busca de recursos para tentar nos trazer um pouco mais de estrutura. O dinheiro arrecadado vai para o projeto que tem as categorias masculino e feminino. Toda ajuda é sempre bem-vinda.
Nathalia: Surgiu porque a gente tira para comprar uniforme dos nossos bolsos. A vaquinha vai nos ajudar a fazer os uniformes. Porque algumas meninas do nosso time não têm condições, outras demoram a receber, e a gente acaba tirando do nosso bolso.
P: Falando de futebol feminino de forma geral: a falta de investimento ainda é um dos principais problemas? De que forma o investimento poderia fazer a diferença hoje para o Greminho?
Hamilton: A falta de investimento realmente é um fator que atrapalha muito, pois sem recursos não é possível fazer nada. Existem obstáculos enormes em nosso caminho, falta recurso para poder fazer mais. Com investimento, conseguiríamos fazer muito mais pelos nossos jovens.
Nathalia: A gente treina numa praça em Cosmos. A gente precisava de uma estrutura com um campo fechado para a gente, de uniforme, de auxílio médico.
*Texto escrito para o portal Esporte 2,1.